sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Elogio a Roberto Araújo de Oliveira Santos, patrono da cadeira 44 do Instituto Histórico e Geográfico do Pará - IHGP




 
Grande é a honra de ingressar no quadro de sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Honra maior pela distinção de fundadora da cadeira no 44, cujo patrono é Roberto Araújo de Oliveira Santos.
Honraria que me remete ao tempo de estudante em que, como aluna do curso de Ciências Sociais, conheci e passei a admirar o prof. Roberto Santos que ministrava disciplinas de Economia. Em outubro de 1964, a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras comemorou seu primeiro decênio com uma programação de painéis. Designada para colaborar no painel sobre “Alguns Problemas do Crescimento de Belém”, ainda que apenas apresentando o álbum seriado como apoio à fala de Roberto, longe estava de supor que provavelmente aí iniciasse meu interesse e fascínio pelos estudos urbanos, desenvolvidos mais tarde na pós-graduação. Em 1966, indicamos Roberto Santos para ser homenageado como paraninfo da turma de C. Sociais que concluía seus estudos. A foto do convite para minha posse no IHGP registra este dia.
Ingressei, através de concurso público, no magistério superior da UFPA, após ter trabalhado por oito anos no Instituto do Desenvolvimento Econômico e Social do Pará – IDESP, onde Roberto Santos também foi protagonista. No IDESP, como assessora de Amilcar Tupiassu, participei da equipe de coordenação do Convênio SERFHAU/IDESP para elaboração de Relatórios Integrados de Planejamento Urbano de sete municípios paraenses, e da implantação do embrião do Sistema de Planejamento Estadual, fazendo parte da equipe de coordenação que implantou as Unidades de Planejamento nos órgãos de administração direta e indireta do Estado. Já na condição de professora concursada da UFPA, cursei o mestrado em Planejamento do Desenvolvimento – Plades, que depois cheguei a coordenar. Roberto Santos fazia parte do quadro de magistério do Núcleo. Em várias ocasiões, portanto, seja como aluna, como técnica, como professora e amiga, tive a grata satisfação de conviver com ele.
 Meu caminho profissional foi entrelaçado de teoria e prática que permitiram percorrê-lo focada em pesquisa, planejamento e avaliação de políticas públicas urbanas, em que as noções de espaço e tempo são fundamentais. Espaço e tempo que me retornam à figura de Roberto Santos. Nascido em dezembro de 1932, faleceu em 24/06/2012, deixando vasta contribuição para entendimento das relações sociais e de trabalho no Brasil e particularmente na Amazônia. Versátil, com visão multi e interdisciplinar dos problemas sociais, sempre se destacou nos caminhos que trilhou, seja na condição de estudante secundarista ou universitário, seja como profissional, costurando com desenvoltura várias áreas do conhecimento, do Direito à Economia, passando pela Sociologia e História.
De acordo com o Prof. Orlando Silva[2], com o qual passou a desenvolver estreita amizade a partir de 1944, Roberto se destacava dentre os melhores alunos no Ginásio do Colégio do Carmo e depois no Curso Clássico do Colégio Estadual Paes de Carvalho.
Bacharel em Direito, turma de 1955, exerceu com brilhantismo a advocacia até 1963, quando então ingressou por concurso público na magistratura da Justiça do Trabalho, classificado em primeiro lugar. Antes disso, participou da Comissão de Planejamento da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia-SPVEA, presidindo em 1961, a Subcomissão de Desenvolvimento Cultural.
 Nomeado Juiz Presidente da Junta de Conciliação e Julgamento de Capanema, lá permaneceu até 1967, quando foi removido para a 2ª. JCJ de Belém. Em 1968 foi promovido por merecimento a Juiz Togado do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª. Região, assumindo a vice-presidência no biênio 1980/1982. Presidente do TRT, no biênio seguinte, “teve uma das mais brilhantes carreiras na magistratura trabalhista brasileira”[3], chegando à Vice-Presidência da Associação Nacional de Juízes da Justiça do Trabalho. Segundo seus companheiros de toga, uma de suas maiores obras enquanto Presidente do TRT-8 foi a realização do Curso de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados, inspirado na Escola Nacional da Magistratura da França, em nível de especialização e em convênio com a UFPA.[4] A primeira turma em 1984 pode ser considerada, segundo o Desembargador Vicente Malheiros da Fonseca, o embrião da Escola Judicial, imprescindível para a formação e o aperfeiçoamento dos magistrados, implantada no Brasil vinte anos depois, com a Emenda constitucional de no 45/2004 que dispõe sobre a Reforma do Poder Judiciário.
Roberto Santos dá destaque especial a um item em seu currículo, por ocasião de sua candidatura a sócio efetivo do IHGP, em 1991, quando assumiu a cadeira no 2, em substituição a Arthur Napoleão Figueiredo, cujo patrono é Alexandre Rodrigues Ferreira. Diz respeito ao seu célebre despacho que iniciou o processo de recuperação da Instituição Santa Casa de Misericórdia do Pará e seu filantrópico hospital, publicado na mais prestigiosa revista de Direito do Trabalho do Brasil[5]. Declara Roberto que depois de resumir a decisão que avocou centenas de reclamações trabalhistas, decretou a penhora geral da instituição e nomeou uma comissão de depositários administradores para salvar a entidade, mas sem prejuízo dos trabalhadores, o editorial da revista comenta:
            “... elevado alcance social daquele brilhante despacho, cuja orientação deverá ser seguida em casos análogos e que devem estar acontecendo, com muita frequência, principalmente com as entidades filantrópicas, espalhadas por todo o território nacional ...”

“Parabéns ao eminente Presidente (...) por sua corajosa e brilhante atuação. Que a semente por ele plantada germine, aqui e acolá, pois atitudes como esta, se mais frequentes, ajudarão a repor o Judiciário no lugar de destaque que merece. ” (Comentário mais do que nunca pertinente para os dias de hoje).
Roberto ressalva ainda que a administração nomeada para o hospital e acompanhada por ele logrou superar a crise. O saneamento da instituição foi considerado concluído em 1984.   
Seu currículo registra outras distinções e prêmios recebidos:
- Medalha Comemorativa do I Centenário de Nascimento do Dr. Augusto Montenegro, Faculdade de Direito da UFPA, pelos relevantes serviços prestados ao ensino superior, Belém, 1967;
-Ingresso na Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho, no grau de Comendador, por Resolução do Tribunal Superior do Trabalho, 11/08/1980;
- Ingresso na Ordem do Mérito Cabanagem, no grau de Mérito Especial, por resolução da ALEPA, em 07/01/1985;
- Medalha do Mérito “Francisco Caldeira de Castelo Branco”, pela PMB, 08/01/1985;
- Ordem do Mérito do Grão-Pará, no grau de Comendador, Governo do Estado do Pará, 12/03/1987 e
- Medalha do Mérito “Jus et Labor”, no grau de “Serviços Relevantes”, pelo TRT-8ª. Região de 30/06/1988.
Roberto aposentou-se como juiz togado em 5 de outubro de 1990.
Na UFPA, em 1981 foi professor de Fundamentos Econômicos do Direito, no Curso de Pós-Graduação em Direito. No período de 1991 a 1993 coordenou o Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD), do então Centro de Ciências Jurídicas da UFPA e lecionou a disciplina Sociologia do Direito nesse curso.
Mas, não foi apenas na área de Ciências Jurídicas que Roberto desenvolveu suas atividades na Universidade. Ingressou, em 1958, a convite, como professor catedrático na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Pará – FFCLPA, onde passou a ministrar as disciplinas de Economia e de História das Doutrinas Econômicas. Em ambas fui sua aluna, em 1963 e 1964, respectivamente. No período de 1977 a 1980 foi professor do mestrado em Planejamento do Desenvolvimento do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, mesmo período em que cursei o mestrado do NAEA.
Na condição de professor de disciplinas econômicas Roberto Santos cursou Mestrado em Economia na Universidade de São Paulo – USP, defendendo sua dissertação em 1977, sendo aprovado com distinção e louvor. Orlando Sampaio Silva, seu amigo e companheiro de trabalho e lutas, testemunhou que ao final do exame, após a defesa, o professor presidente da Banca Examinadora e Orientador lamentou não poder conceder ao mestrando o título de Doutor em Economia, tal a qualidade do estudo apresentado. Em 1980 seu trabalho foi publicado, sob o título “História Econômica da Amazônia (1800 -1920) ” pela Editora Paulista T. A. Queiroz Editor Ltda. e tornou-se uma referência para os pesquisadores e estudiosos interessados em relações econômicas e sociais na Amazônia, com destaque para as relações de trabalho.
Várias outras de suas obras foram publicadas, dentre as quais destaco: Problemas do Emprego em Belém, Cadernos Paraenses no 2, IDESP, Belém, 1966; Leis Sociais e Custo de Mão-de-Obra no Brasil, Ed. Ltr, São Paulo, 1973; O Processo Histórico da Integração Capitalista da Amazônia, Centro de Filosofia e Ciências Humanas-NAEA-UFPA, Cadernos, 1981.
Mas, sem sombra de dúvida, no campo da História, Economia, Sociologia e Política é seu trabalho sobre a História Econômica da Amazônia que mais se destaca. Referência até hoje para aqueles que estudam políticas de desenvolvimento da Amazônia e suas relações de poder. Roberto inicia seu livro chamando atenção ao impressionante crescimento econômico na região durante o século XIX e o desafio de seu entendimento. Aponta para o fato de que volumoso refluxo de renda era encaminhado para o exterior e outras regiões do Brasil, não sendo investidos localmente. Fenômeno até hoje presente nas relações capitalistas periféricas na Amazônia. Através do conceito de aviamento lança luzes nas condições de exploração do trabalho nos seringais, no endividamento permanente do aviado, no lucro do capitalista externo, no papel desempenhado pelas casas aviadoras e na imensa rede espacial que vai sendo tecida através dos rios, à medida que a busca pelos produtos vai penetrando o interior da Região.
Na introdução o autor revela não ter conseguido satisfazer sua curiosidade, cada vez maior, pela história na região. Que curiosidade seria essa? “... do poder real, da origem e relações das elites entre si, dos nexos entre a produção econômica, o mando político e os modos ou condicionantes institucionais da distribuição do produto ...”. Por outro lado, afirma estar convencido de que a sistematização de informações econômicas levantadas monta um cenário que permite um caminhar com maior segurança para os pesquisadores interessados no poder efetivo.
A jornalista Simone Romero, em entrevista publicada em O Liberal, no dia 12.08.2007 perguntou a Roberto Santos: “Se o senhor fosse escrever uma segunda parte desse livro, incluindo os fatos recentes ocorridos na economia amazônica, o que destacaria? ” Os destaques a serem dados seriam outros, considerando as mudanças ocorridas e que estão ocorrendo na Amazônia, respondeu. E citou alguns, que se constituem preciosas pistas para os atuais estudiosos e pesquisadores com interesse no desenvolvimento regional: as alterações climáticas e suas consequências, considerando a interferência das mudanças do clima na forma como a economia se desenvolverá na Região; mudanças da sociedade e do homem amazônicos; as questões ambientais; os novos empreendimentos; as alterações sociais, os avanços conseguidos, os atrasos que permanecem, enfim, as mudanças no homem amazônico e as por ele enfrentadas. Nessa mesma entrevista Roberto chama atenção da continuidade de relações servis de trabalho no meio rural, originadas no passado através do fenômeno do aviamento e que sutilmente ainda hoje se mantêm em algumas localidades interioranas do Acre e do Pará. Alerta para o que de mais novo e mais terrível está acontecendo na Amazônia, a escravidão disfarçada[6]. Disfarçada em um falso aviamento, que atinge pessoas e famílias oriundas de outras regiões do país, principalmente do Nordeste.
Observa-se que o tempo não apagou sua combatividade e idealismo de estudante e professor universitário, evidenciados quando, durante a ditadura militar, teve atuação destacada na luta pela renovação de quadros dirigentes da UFPA, tanto na Reitoria como na Direção da Faculdade de Filosofia. Participou da fundação da Associação Paraense de Sociologia, com seus colegas e amigos Orlando Costa, Orlando Sampaio Silva e Amílcar Tupiassu.
Nem tampouco abalou seu amor à arte e à cultura. Depoimentos de amigos e admiradores comprovam sua versatilidade, do piano ao cinema.[7]
A volumosa Biblioteca particular de Roberto Santos passou a integrar o Projeto Memorial do Livro Moronguêtá, da UFPA, que reúne, organiza e disponibiliza Bibliotecas que pertenceram a intelectuais paraenses destacados.
Roberto Santos formou uma parceria fantástica com sua esposa, a ilustre Dra. Elizabeth Santos, pesquisadora e Diretora do Instituto Evandro Chagas, tendo com ela cinco filhos.
Os sócios do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, e eu particularmente, sócia fundadora como primeira ocupante da cadeira, temos imenso orgulho de contar na galeria de nossos patronos com o nome de Roberto Araújo de Oliveira Santos.  
Rompendo um pouco o protocolo, quero registrar o significado da escolha deste casarão para este rito de passagem como membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Casarão em que vivi com meu companheiro, Antônio Jorge, por mais de 40 anos e que já pertencia à família Abelem há mais de trinta quando aqui vim morar. O rito de posse, realizado neste local, também é em homenagem a ele, que aqui recepcionou Roberto Santos para conversas sobre o Hospital Santa Casa de Misericórdia. Homenagem que se estende ao bairro do Reduto com sua história construída por migrantes, vários deles libaneses e portugueses, que compõe a memória da periferia do centro histórico de Belém. Tenho registros relacionando história do bairro e da cidade com história das famílias Ferreira Gomes, de meus avós paternos, Ramos, dos avós maternos e Abelem, que pretendo continuar resgatando na minha passagem no IHGP.
Hoje, tenho orgulho de ver o casarão preservado em suas linhas básicas, gerenciado por um dos meus filhos, dando suporte a trabalhos na área de rede de computação e tecnologia da informação, demonstrando como antigo e moderno, podem subsistir, em diferentes tempos, em um mesmo espaço, preservando sua história passada, protagonizando tempos modernos presentes e apontando caminhos para o futuro.
Obrigada.
Auriléa Gomes Abelem
Em 23 de setembro de 2016 


[1] Socióloga, mestre em Planejamento do Desenvolvimento (NAEA/UFPA), a autora é professora adjunta da UFPA, aposentada, e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará.
[2] Em seu blog Tempo-Espaço e Memória, Orlando Sampaio Silva, Professor Titular da UFPA, Doutor em Ciências Sociais (Antropologia) ossilva@attglobal.net presta uma homenagem ao amigo e colega ROBERTO SANTOS, em 02/08/2012
2 ICJ/UFPA em Nota de Falecimento – Dr. Roberto Araújo de Oliveira Santos, publicado em Segunda, 25 de junho 2012, Internet.
[4] Vicente Malheiros da Fonseca, desembargador (decano) do TRT-8. Pequena elegia a Roberto Santos, postado por Poster em 2012/06/26.
[5] Edição de abril de 1983, LTR – Legislação do Trabalho (vol. 47, n. 4, pp 389-390, São Paulo).
[6] Grifo nosso.
[7] Roberto fazia parte do grupo “Os Espectadores” que vigeu de 1951 a 1956. Era um dos mais novos. Max Martins apresenta um texto em resposta a seu comentário a um filme, no livro coordenado por Pedro Veriano, “A Crítica de Cinema em Belém”, publicado em 1983 pela SECULT e editado pela Gráfica Falângola.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Saudação de boas vindas de Saint-Clair Cordeiro da Trindade Junior a Auriléa Gomes Abelem por ocasião de sua posse no IHGPA









“No casarão do Reducto de São José,
há espaço para a razão e também para a emoção...”

No Reducto de São José  está plantada uma casa
Há uma casa plantada
No Reducto de São José
Mais do que casa, é casarão
Que é planta, sim, de engenharia,
Mas, sobretudo, é planta de vida,
Que tem raízes
Que tem tronco
Que se espalha em galhos
Que gera frutos
E que também é reducto, é proteção.
Proteção de almas, que são gêmeas
De aconchego, para o coração
E de auras que se cruzam
É reducto de defesa da razão
Nele há espaços para a emoção, para a canção
Nele há espaços para a paixão
E reserva, também, neste momento,
Cantos e encantos para a reflexão.
Não é, por isso, um simples espaço
Tem memórias, narrativas
Tem trajetórias...
Em sendo espaço, é também lugar.
Que nos dá vazão
E nos faz imergir em pertencimentos,
Em histórias e em geografias que espelham identidades
É lugar de várias, em apenas uma,
Pessoa, mulher, mãe, esposa e intelectual
Que se enraíza em tradição
E que se antena ao mundo
De macro e de microcosmos de vidas,
De vidas de uma Belém cidade,
Contida em seu próprio (sobre) nome,
E que, pelo “A” que não lhe nega,
Se chama Abelém.

Com estas palavras, que nos remetem a uma casa da Rua 28 de Setembro, situada entre a Rui Barbosa e a Quintino Bocaiúva, no bairro do Reduto de São José, é que inicio minha saudação à minha ex-professora, orientadora, amiga e, agora, nova sócia do IHGP, Auriléa Gomes Abelém.

Não estamos no dia 28, mas bem que poderíamos estar também neste dia, já que o mês é de setembro. Se assim fosse, entrecruzaríamos o espaço e o tempo neste ponto de meridiano e paralelo em que nos situamos agora e que é, indubitavelmente, transversal aos tempos. De qualquer forma, independentemente do dia, este casarão simboliza o encontro da história com a geografia, através de uma só pessoa, que, para nós, é representativa do que é a nossa cidade, e também do que somos, como amazônidas.

Nascida nesta cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, Auriléa Gomes Abelém é uma dos sete filhos do casal Pedro José de Mendonça Gomes e Cecília Ferreira Gomes. Veio morar no bairro do Reduto no ano de 1969, dez meses depois de se casar com Antônio Jorge Abelém, em 1968, e que já era morador do mesmo bairro, onde também nasceu e se criou.

A ligação de nova nossa sócia com esse bairro extrapola, entretanto, os 41 anos em que aí morou. Seu bisavô, Raphael Fernandes Gomes, foi um dos sócios fundadores da Ferreira Gomes & Cia., que sucedeu a firma Centro Comercial Redutoense, uma das grandes expressões do comércio do bairro no passado.

Mas essa relação com o bairro não se esgota aí. Às proximidades da casa onde morou grande parte de sua vida estavam localizados três estabelecimentos que também foram marcas da geografia do bairro e de sua própria história: a Ferreira Gomes Ferragista S/A, de seu avô paterno; o Frigorífico Paraense Ltda. (FRIGOPAR), de seu pai; e as Lojas Jorbem, antes Bazar São João, de seu esposo.

Foi o Reduto que também me fez cruzar a geografia e a história de Auriléa Abelém e a de seu esposo. Ambos, à sua maneira, levaram-me a conhecer e a imergir nos espaços e nos tempos desse bairro. Ele, de maneira mais empírica, conduzindo-me pelas ruas e becos desse pedaço tão representativo de nossa cidade e me mostrando o bairro do passado e do presente. Ela, me fazendo refletir teorica e cientificamente sobre a realidade do Reduto para defendê-lo, como parte de minha dissertação de mestrado. Foi assim que, tomando-me pelas mãos, fez-me seguir, como ela já teria feito antes, os passos da vida acadêmica.

No seu caso, essa trajetória iniciou ainda na década de 1960, ao, ingressar, em 1963, por meio de vestibular, no curso de Ciências Sociais na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Pará. Como nos narra em suas memórias, “era uma época de grande efervescência política e cultural na universidade brasileira, com intensa participação dos estudantes que contavam, em Belém, com uma sede onde era possível congregar os vários diretórios acadêmicos. Situada na Avenida São Jerônimo, hoje Governador José Malcher, a União Acadêmica Paraense (UAP), filiada a UNE (União Nacional dos Estudantes), foi em 1 de abril de 1964, um dos primeiros alvos dos militares aqui no Pará, sendo invadida, suas lideranças presas e a entidade extinta”[1].

Entrou para essa faculdade pensando em se tornar pesquisadora em Ciências Sociais, mas, como relata ela própria, “em decorrência do golpe militar de 1964, as expectativas do que seria um curso para formar pesquisadores em Ciências Sociais foram abaladas em seus alicerces: o curso passou a formar apenas licenciados, não mais bacharéis”[2]; fato este que a fez pensar em desistir, se não fosse a possibilidade que o curso lhe deu, mesmo sob uma orientação mais convencional de pensamento social, olhar sua realidade sobre diversos ângulos disciplinares das Ciências Sociais, ajudada que foi por importantes professores que muito influenciaram sua forma de interpretar a realidade, dentre eles: Orlando Costa, Amílcar Tupiassu, Armando Bordalo, Napoleão Figueiredo, Benedito Nunes, Graça Landeira e o grandioso Roberto Santos, que dá nome à cadeira agora ocupada por nossa nova sócia no IHGP.

Formou-se em 1966, mesmo ano em que foi fundada a SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), que muita transformação promoveu na história, na geografia e na vida social e econômica da nossa região, de nosso estado e de nossa cidade; esta que também passou a se metropolizar a partir daquele momento.

As transformações em curso na região se tornaram, igualmente, os principais objetos de preocupação de Auriléa Gomes Abelém que, desde a graduação, já despertava interesse pelas questões da região amazônica e de Belém. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando a
Faculdade de Filosofia comemorou, em outubro de 1964, seu primeiro decênio, realizando uma programação de painéis promovidos pelos seus diversos cursos de graduação. Foi nessa oportunidade que, em colaboração com o Professor Roberto Santos, o também paraninfo de sua turma de 1966, participou do painel intitulado: “Alguns Problemas do Crescimento de Belém”. Essa atividade manifestava, já naquele momento, o seu fascínio pelos estudos urbanos, desenvolvidos de forma mais aprofundada, posteriormente, na pós-graduação.

Foi, sem dúvida, a formação inicial em Ciências Sociais que lhe forneceu elementos e instrumentais para lidar com questões relacionadas ao planejamento e à intervenção na realidade social, política e econômica estadual e regional; interesse esse que foi somado aos conhecimentos teóricos mobilizados na sua prática de docência, e que estreitaram os seus vínculos com a pesquisa e extensão, desde o ano de 1974.

Foi nesse ano, ainda em plena ditatura militar brasileira, que retornou ao ambiente acadêmico como docente, após atuar por oito anos na condição de técnica e pesquisadora do IDESP (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará), então órgão de pesquisa e planejamento estadual, no qual começou a trabalhar depois do convite de seu antigo professor Amílcar Tupiassu. Para esse mesmo órgão retornou depois, em 1998, após sua aposentadoria na UFPA, ocorrida no ano de 1996.

A ditadura militar foi responsável por impor a formação de técnicos gestores e planejadores para pensar a região e seus estados e, como conseqüência, a revitalização das Ciências Sociais e Econômicas, estimulou o desenvolvimento da pós-graduação nessas áreas; fato esse que deu origem, em 1973, ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, onde, no início da década de 1980, concluiu seu mestrado, sendo esta oportunidade uma forma de pensar a região amazônica e seus problemas urbanos, como uma resposta crítica aos anseios até então colocados pela ideologia do planejamento da ditadura militar.

Conforme relata a própria Auriléa Abelém em suas memórias, se, por um lado, o núcleo de integração, então surgido, o NAEA, buscava contribuir para a “formação de ideólogos do planejamento estatal, dando origem, mais tarde, ao mestrado em Planejamento do Desenvolvimento [foi] o mesmo núcleo que passou a estimular a consciência crítica e a instrumentalizar seus alunos para a busca do planejamento alternativo, democrático e participativo”[3]. Seguindo essa orientação foi que Auriléa encaminhou as suas contribuições no interior e fora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

Seu mestrado demonstrou a sensibilidade para uma geografia, uma história e uma sociologia urbana de Belém nada convencionais. Preocupada com a problemática dos terrenos ocupados, com a reintegração de posse de espaços em bairros como a Sacramenta, com a luta pela moradia urbana nas décadas de 1970 e 1980, em uma cidade que se metropolizava, sua pesquisa de mestrado tratou do remanejamento da população do Igarapé São Joaquim para o Conjunto Providência, sendo uma das primeiras dissertações elaboradas no interior do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

Defendida em 1982, sob a orientação do professor Heraldo Maués, que também integra este importante silogeu, essa mesma dissertação, foi, mais tarde, no final da década de 1980, publicada em forma de livro com o mesmo título que nomeou a dissertação, “Urbanização e remoção: por que e para quem?” [4], tornando-se, a partir daí,  um livro de referência e uma leitura obrigatória para todos aqueles que discutem e estudam o processo de urbanização de Belém e da Amazônia.

Como parte de sua formação, também realizou duas especializações, uma em Teoria Sociológica, pela Universidade Federal do Pará, concluída em 1982, e outra em Ciencias Sociales Politicas, pela Faculdade Latino Americana de Ciencias Sociais, em 2002.

Sua experiência na área de Sociologia e Ciência Política, com ênfase em políticas públicas, lutas urbanas, planejamento urbano, Estado e políticas públicas, avaliação institucional e avaliação de políticas públicas deram possibilidades de atuar e se destacar como docente, pesquisadora e orientadora de trabalhos acadêmicos, inclusive em nível de mestrado, tratando e problematizando temas como os relacionados ao planejamento, às remoções e às contradições e dinâmicas urbanas.

Dentre as orientações efetivadas, destaco a minha própria, em nível de mestrado; orientação essa dividida com o professor Roberto Lobato Corrêa, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Como Auriléa, realizei mestrado no NAEA, momento em que pude estabelecer importante interlocução com ela, que me proporcionou ricos aprendizados, gerando, como fruto, em 1993, a dissertação “Produção do espaço e diversidade do uso do solo em área de baixada saneada -  Belém-Pará”. Graças à sua contribuição, essa mesma dissertação foi contemplada com o segundo lugar do “I Prêmio NAEA - Dissertação de Mestrado”, resultando em publicação, em forma de livro, no ano de 1997[5].

Na UFPA, além da docência, da pesquisa, das orientações e da extensão, participou de comissões internas, esteve a frente de comissões editoriais de revistas científicas, coordenou cursos em diversos níveis, inclusive o de Planejamento do Desenvolvimento, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

Destacam-se, ainda, como parte de sua vida profissional, atuações como consultora, pesquisadora, colaboradora e/ou coordenadora de programas e projetos na SECTAM (Secretaria de Estado de Ciência Tecnologia e Meio Ambiente), no IUPEA (Instituto Universitário de Pesquisa e Ensino na Amazônia), no PROCERAS (Programa de Capacitação da Rede de Assistentes Sociais do Governo do Estado do Pará), na FLACSO (Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales - Programa Santiago, Chile), na UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), na SEMEC (Secretaria Municipal de Educação e Cultura, SEMEC) e no ISEB (Instituto Superior de Educação de Belém).


Destacam-se as seguintes publicações em periódicos:

1. ABELEM, Auriléa Gomes1984 ABELEM, Auriléa Gomes. Ideologia e Planejamento Urbano: reflexões sobre uma experiência em Belém. Espaço & Debates, São Paulo, v. 12, n.4, p. 5-25, 1984.

2. ABELEM, Auriléa Gomes; OTERLOO, Matheus . Belém: Identidades Regionais e Novas Estratégias. Revista Proposta, Rio de Janeiro, v. 67, 1995.

3. ABELEM, Auriléa Gomes. Gestão Democrática e Geração de Indicadores Sociais. Gestão Democrática e Geração de Indicadores Sociais, Belém, v. 1, n.1, p. 52-55, 1996.

4. ABELEM, Auriléa Gomes1996 ABELEM, Auriléa Gomes. Carências Habitacionais na Amazônia. Cadernos de Estudos Sociais (FUNDAJ), v. 12, n.2, 1996.

Como capítulos de livro de sua autoria, temos:

1. ABELEM, Auriléa Gomes; EVANGELISTA, Maria Luiza Marques ; YANNOULAS, Sílvia C . Consultas aos Atores e Atrizes Estratégicos (1998 - 2003). In: YANNOULAS, Sílvia. C. (Org.). A convidada de Pedra - Mulheres e Políticas Públicas de Trabalho e Renda: entre a descentralização e a integração supranacional. Um olhar a partir do Brasil 1988 - 2002. Brasília: FLACSO, 2003. v. 1. p. 1-348.

2. ABELEM, Auriléa Gomes; HÉBETTE, Jean. Assentamentos da Reforma Agrária na Fronteira Amazônica. In: HÉBETTE, Jean. (Org.). Cruzando a Fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Belém: EDUFPA, 2004. v. 2. p. 1-303.

3. ABELEM, Auriléa Gomes; HÉBETTE, Jean ; PARAENSE, Mariceli; EMMI, Marília . Cruzando uma zona de fronteira em conflitos: o leste do Médio Tocantins. In: HÉBETTE, Jean. (Org.). Cruzando a Fronteira: 30 anos de estudo do Campesinato na Amazônia. Belém: EDUFPA, 2004. v. II. p. 1-303.

4. ABELEM, Auriléa Gomes; COSTA, Maria José Jackson . A Descentralização de Políticas Públicas: o caso Planfor/PEQ no Pará. In: COSTA, Maria José Jackson. (Org.). Trabalho, educação profissional e empregabilidade. Belém: EDUFPA, 2006. p. 1-261.

Essa produção é também enriquecida com suas orientações acadêmicas, dentre elas as 4 dissertações de mestrado que acompanhou como orientadora ou coorientadora, além de vários trabalhos de graduação em áreas como a Sociologia, a Geografia, a Ciência Política e o Planejamento Urbano e Regional.

Sem dúvida, foi toda essa bagagem acadêmica e cultural a responsável pela sua inquestionável aceitação como nova sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. E é neste sentido, minha querida orientadora e amiga, ilustríssima Professora Auriléa Abelém, que quero, em nome dos sócios deste Instituto, dar-lhe as boas-vindas a este importante silogeu a fim de que possa, a partir de agora, ocupar a cadeira de número 44, como sua fundadora, cujo patrono é o ilustríssimo Roberto Araújo de Oliveira Santos.

Sua presença no nosso meio é um motivo de grande alegria, de honra e de orgulho, pois sabemos que sua trajetória de vida, assim como a sua rica trajetória acadêmica, nos diversos campos onde atuou e tem atuado, referendam a sua preocupação em articular os conhecimentos entre a história, a geografia e as ciências afins, tendo, portanto, muito a contribuir para elevar ainda mais o nome do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e para engrandecer essas importantes ciências que muito bem dialogam com a sua formação acadêmica e profissional.

Que seu rico conhecimento, assim como o seu pensamento crítico e reflexivo, venha a somar àquilo que se faz e se divulga a partir do IHGP. Que sua paixão e seu amor pelo Reducto de São José, por Belém, pelo Pará e por nossa região sejam bem acolhidos no Solar do Barão, que também é um casarão, como este em que estamos, que muito bem acolheu a sua história e a sua geografia de vida.

E, ainda, que o seu carinho, a sua atenção e o seu cuidado em preservar e manter este casarão inspire-nos, também, juntos, no casarão do Barão, a preservar, a manter, a cuidar e a divulgar a História, a Geografia e a Antropologia de nosso estado e de nossa região; preocupações estas que são a razão maior da existência de um Instituto que é centenário e que já se tornou um patrimônio de nossa cultura, de nossa história e da paisagem urbana de nossa cidade.

Sinta-se em casa, pois este Instituto e todos os que nele se reúnem, e que é tão bem presidido pela Profa. Dra. Anaiza Vergolino, já lhe têm, a partir de agora, como parte de sua história e, por que não dizer, de sua geografia, que é feita cotidianamente por cada um dos que integram o IHGP.

É formado por sócios que, mais que intelectuais, pesquisadores, professores, estudiosos da Geografia, da História, da Antropologia e de ciências afins, compõem um corpo de cidadãos empenhados em causas e questões que não são apenas nossas, mas de toda uma coletividade, e que também agora lhe recebem de braços abertos para reforçar o nosso quadro de intelectuais, para consolidar atividades já em curso, bem como, para constituir outras frentes de trabalho por meio de novas inciativas que, esperamos, possam surgir a partir  de sua presença entre nós, reforçando o nosso ambiente propício à criação, ao debate e à reflexão científica e cultural.

Seja muito bem-vinda professora Auriléa Gomes Abelém. O Instituto Histórico e Geográfico do Pará, agora é, também, sua casa!

Obrigado!

Belém-Pará, 23 de setembro de 2016.


Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior
Geógrafo e Bacharel em Direito, UFPA.
Sócio Efetivo do IHGP, Cadeira no 21.
Doutor em Geografia Humana, FFLCH/USP.
Professor Titular em Geografia, NAEA/UFPA.
Pesquisador Nível 1D, CNPq.


[1] ABELÉM, A. G. Memória a Belém. Disponível em: <http://memoriaabelem.blogspot.com.br>. Belém, mai. 2016. Acesso em: 21 set. 2016. n.p.
[2] Idem, ibidem.
[3] Idem, ibidem.
[4] ABELÉM, A. G. Urbanização e remoção: por que e para quem? Belém: UFPA/NAEA, 1988.
[5] TRINDADE JR., S-C. C. Produção do espaço e uso do solo urbano em Belém. Belém: NAEA, 1997.