quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Saudação de boas vindas de Saint-Clair Cordeiro da Trindade Junior a Auriléa Gomes Abelem por ocasião de sua posse no IHGPA









“No casarão do Reducto de São José,
há espaço para a razão e também para a emoção...”

No Reducto de São José  está plantada uma casa
Há uma casa plantada
No Reducto de São José
Mais do que casa, é casarão
Que é planta, sim, de engenharia,
Mas, sobretudo, é planta de vida,
Que tem raízes
Que tem tronco
Que se espalha em galhos
Que gera frutos
E que também é reducto, é proteção.
Proteção de almas, que são gêmeas
De aconchego, para o coração
E de auras que se cruzam
É reducto de defesa da razão
Nele há espaços para a emoção, para a canção
Nele há espaços para a paixão
E reserva, também, neste momento,
Cantos e encantos para a reflexão.
Não é, por isso, um simples espaço
Tem memórias, narrativas
Tem trajetórias...
Em sendo espaço, é também lugar.
Que nos dá vazão
E nos faz imergir em pertencimentos,
Em histórias e em geografias que espelham identidades
É lugar de várias, em apenas uma,
Pessoa, mulher, mãe, esposa e intelectual
Que se enraíza em tradição
E que se antena ao mundo
De macro e de microcosmos de vidas,
De vidas de uma Belém cidade,
Contida em seu próprio (sobre) nome,
E que, pelo “A” que não lhe nega,
Se chama Abelém.

Com estas palavras, que nos remetem a uma casa da Rua 28 de Setembro, situada entre a Rui Barbosa e a Quintino Bocaiúva, no bairro do Reduto de São José, é que inicio minha saudação à minha ex-professora, orientadora, amiga e, agora, nova sócia do IHGP, Auriléa Gomes Abelém.

Não estamos no dia 28, mas bem que poderíamos estar também neste dia, já que o mês é de setembro. Se assim fosse, entrecruzaríamos o espaço e o tempo neste ponto de meridiano e paralelo em que nos situamos agora e que é, indubitavelmente, transversal aos tempos. De qualquer forma, independentemente do dia, este casarão simboliza o encontro da história com a geografia, através de uma só pessoa, que, para nós, é representativa do que é a nossa cidade, e também do que somos, como amazônidas.

Nascida nesta cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, Auriléa Gomes Abelém é uma dos sete filhos do casal Pedro José de Mendonça Gomes e Cecília Ferreira Gomes. Veio morar no bairro do Reduto no ano de 1969, dez meses depois de se casar com Antônio Jorge Abelém, em 1968, e que já era morador do mesmo bairro, onde também nasceu e se criou.

A ligação de nova nossa sócia com esse bairro extrapola, entretanto, os 41 anos em que aí morou. Seu bisavô, Raphael Fernandes Gomes, foi um dos sócios fundadores da Ferreira Gomes & Cia., que sucedeu a firma Centro Comercial Redutoense, uma das grandes expressões do comércio do bairro no passado.

Mas essa relação com o bairro não se esgota aí. Às proximidades da casa onde morou grande parte de sua vida estavam localizados três estabelecimentos que também foram marcas da geografia do bairro e de sua própria história: a Ferreira Gomes Ferragista S/A, de seu avô paterno; o Frigorífico Paraense Ltda. (FRIGOPAR), de seu pai; e as Lojas Jorbem, antes Bazar São João, de seu esposo.

Foi o Reduto que também me fez cruzar a geografia e a história de Auriléa Abelém e a de seu esposo. Ambos, à sua maneira, levaram-me a conhecer e a imergir nos espaços e nos tempos desse bairro. Ele, de maneira mais empírica, conduzindo-me pelas ruas e becos desse pedaço tão representativo de nossa cidade e me mostrando o bairro do passado e do presente. Ela, me fazendo refletir teorica e cientificamente sobre a realidade do Reduto para defendê-lo, como parte de minha dissertação de mestrado. Foi assim que, tomando-me pelas mãos, fez-me seguir, como ela já teria feito antes, os passos da vida acadêmica.

No seu caso, essa trajetória iniciou ainda na década de 1960, ao, ingressar, em 1963, por meio de vestibular, no curso de Ciências Sociais na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Pará. Como nos narra em suas memórias, “era uma época de grande efervescência política e cultural na universidade brasileira, com intensa participação dos estudantes que contavam, em Belém, com uma sede onde era possível congregar os vários diretórios acadêmicos. Situada na Avenida São Jerônimo, hoje Governador José Malcher, a União Acadêmica Paraense (UAP), filiada a UNE (União Nacional dos Estudantes), foi em 1 de abril de 1964, um dos primeiros alvos dos militares aqui no Pará, sendo invadida, suas lideranças presas e a entidade extinta”[1].

Entrou para essa faculdade pensando em se tornar pesquisadora em Ciências Sociais, mas, como relata ela própria, “em decorrência do golpe militar de 1964, as expectativas do que seria um curso para formar pesquisadores em Ciências Sociais foram abaladas em seus alicerces: o curso passou a formar apenas licenciados, não mais bacharéis”[2]; fato este que a fez pensar em desistir, se não fosse a possibilidade que o curso lhe deu, mesmo sob uma orientação mais convencional de pensamento social, olhar sua realidade sobre diversos ângulos disciplinares das Ciências Sociais, ajudada que foi por importantes professores que muito influenciaram sua forma de interpretar a realidade, dentre eles: Orlando Costa, Amílcar Tupiassu, Armando Bordalo, Napoleão Figueiredo, Benedito Nunes, Graça Landeira e o grandioso Roberto Santos, que dá nome à cadeira agora ocupada por nossa nova sócia no IHGP.

Formou-se em 1966, mesmo ano em que foi fundada a SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), que muita transformação promoveu na história, na geografia e na vida social e econômica da nossa região, de nosso estado e de nossa cidade; esta que também passou a se metropolizar a partir daquele momento.

As transformações em curso na região se tornaram, igualmente, os principais objetos de preocupação de Auriléa Gomes Abelém que, desde a graduação, já despertava interesse pelas questões da região amazônica e de Belém. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando a
Faculdade de Filosofia comemorou, em outubro de 1964, seu primeiro decênio, realizando uma programação de painéis promovidos pelos seus diversos cursos de graduação. Foi nessa oportunidade que, em colaboração com o Professor Roberto Santos, o também paraninfo de sua turma de 1966, participou do painel intitulado: “Alguns Problemas do Crescimento de Belém”. Essa atividade manifestava, já naquele momento, o seu fascínio pelos estudos urbanos, desenvolvidos de forma mais aprofundada, posteriormente, na pós-graduação.

Foi, sem dúvida, a formação inicial em Ciências Sociais que lhe forneceu elementos e instrumentais para lidar com questões relacionadas ao planejamento e à intervenção na realidade social, política e econômica estadual e regional; interesse esse que foi somado aos conhecimentos teóricos mobilizados na sua prática de docência, e que estreitaram os seus vínculos com a pesquisa e extensão, desde o ano de 1974.

Foi nesse ano, ainda em plena ditatura militar brasileira, que retornou ao ambiente acadêmico como docente, após atuar por oito anos na condição de técnica e pesquisadora do IDESP (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará), então órgão de pesquisa e planejamento estadual, no qual começou a trabalhar depois do convite de seu antigo professor Amílcar Tupiassu. Para esse mesmo órgão retornou depois, em 1998, após sua aposentadoria na UFPA, ocorrida no ano de 1996.

A ditadura militar foi responsável por impor a formação de técnicos gestores e planejadores para pensar a região e seus estados e, como conseqüência, a revitalização das Ciências Sociais e Econômicas, estimulou o desenvolvimento da pós-graduação nessas áreas; fato esse que deu origem, em 1973, ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, onde, no início da década de 1980, concluiu seu mestrado, sendo esta oportunidade uma forma de pensar a região amazônica e seus problemas urbanos, como uma resposta crítica aos anseios até então colocados pela ideologia do planejamento da ditadura militar.

Conforme relata a própria Auriléa Abelém em suas memórias, se, por um lado, o núcleo de integração, então surgido, o NAEA, buscava contribuir para a “formação de ideólogos do planejamento estatal, dando origem, mais tarde, ao mestrado em Planejamento do Desenvolvimento [foi] o mesmo núcleo que passou a estimular a consciência crítica e a instrumentalizar seus alunos para a busca do planejamento alternativo, democrático e participativo”[3]. Seguindo essa orientação foi que Auriléa encaminhou as suas contribuições no interior e fora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

Seu mestrado demonstrou a sensibilidade para uma geografia, uma história e uma sociologia urbana de Belém nada convencionais. Preocupada com a problemática dos terrenos ocupados, com a reintegração de posse de espaços em bairros como a Sacramenta, com a luta pela moradia urbana nas décadas de 1970 e 1980, em uma cidade que se metropolizava, sua pesquisa de mestrado tratou do remanejamento da população do Igarapé São Joaquim para o Conjunto Providência, sendo uma das primeiras dissertações elaboradas no interior do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

Defendida em 1982, sob a orientação do professor Heraldo Maués, que também integra este importante silogeu, essa mesma dissertação, foi, mais tarde, no final da década de 1980, publicada em forma de livro com o mesmo título que nomeou a dissertação, “Urbanização e remoção: por que e para quem?” [4], tornando-se, a partir daí,  um livro de referência e uma leitura obrigatória para todos aqueles que discutem e estudam o processo de urbanização de Belém e da Amazônia.

Como parte de sua formação, também realizou duas especializações, uma em Teoria Sociológica, pela Universidade Federal do Pará, concluída em 1982, e outra em Ciencias Sociales Politicas, pela Faculdade Latino Americana de Ciencias Sociais, em 2002.

Sua experiência na área de Sociologia e Ciência Política, com ênfase em políticas públicas, lutas urbanas, planejamento urbano, Estado e políticas públicas, avaliação institucional e avaliação de políticas públicas deram possibilidades de atuar e se destacar como docente, pesquisadora e orientadora de trabalhos acadêmicos, inclusive em nível de mestrado, tratando e problematizando temas como os relacionados ao planejamento, às remoções e às contradições e dinâmicas urbanas.

Dentre as orientações efetivadas, destaco a minha própria, em nível de mestrado; orientação essa dividida com o professor Roberto Lobato Corrêa, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Como Auriléa, realizei mestrado no NAEA, momento em que pude estabelecer importante interlocução com ela, que me proporcionou ricos aprendizados, gerando, como fruto, em 1993, a dissertação “Produção do espaço e diversidade do uso do solo em área de baixada saneada -  Belém-Pará”. Graças à sua contribuição, essa mesma dissertação foi contemplada com o segundo lugar do “I Prêmio NAEA - Dissertação de Mestrado”, resultando em publicação, em forma de livro, no ano de 1997[5].

Na UFPA, além da docência, da pesquisa, das orientações e da extensão, participou de comissões internas, esteve a frente de comissões editoriais de revistas científicas, coordenou cursos em diversos níveis, inclusive o de Planejamento do Desenvolvimento, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

Destacam-se, ainda, como parte de sua vida profissional, atuações como consultora, pesquisadora, colaboradora e/ou coordenadora de programas e projetos na SECTAM (Secretaria de Estado de Ciência Tecnologia e Meio Ambiente), no IUPEA (Instituto Universitário de Pesquisa e Ensino na Amazônia), no PROCERAS (Programa de Capacitação da Rede de Assistentes Sociais do Governo do Estado do Pará), na FLACSO (Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales - Programa Santiago, Chile), na UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), na SEMEC (Secretaria Municipal de Educação e Cultura, SEMEC) e no ISEB (Instituto Superior de Educação de Belém).


Destacam-se as seguintes publicações em periódicos:

1. ABELEM, Auriléa Gomes1984 ABELEM, Auriléa Gomes. Ideologia e Planejamento Urbano: reflexões sobre uma experiência em Belém. Espaço & Debates, São Paulo, v. 12, n.4, p. 5-25, 1984.

2. ABELEM, Auriléa Gomes; OTERLOO, Matheus . Belém: Identidades Regionais e Novas Estratégias. Revista Proposta, Rio de Janeiro, v. 67, 1995.

3. ABELEM, Auriléa Gomes. Gestão Democrática e Geração de Indicadores Sociais. Gestão Democrática e Geração de Indicadores Sociais, Belém, v. 1, n.1, p. 52-55, 1996.

4. ABELEM, Auriléa Gomes1996 ABELEM, Auriléa Gomes. Carências Habitacionais na Amazônia. Cadernos de Estudos Sociais (FUNDAJ), v. 12, n.2, 1996.

Como capítulos de livro de sua autoria, temos:

1. ABELEM, Auriléa Gomes; EVANGELISTA, Maria Luiza Marques ; YANNOULAS, Sílvia C . Consultas aos Atores e Atrizes Estratégicos (1998 - 2003). In: YANNOULAS, Sílvia. C. (Org.). A convidada de Pedra - Mulheres e Políticas Públicas de Trabalho e Renda: entre a descentralização e a integração supranacional. Um olhar a partir do Brasil 1988 - 2002. Brasília: FLACSO, 2003. v. 1. p. 1-348.

2. ABELEM, Auriléa Gomes; HÉBETTE, Jean. Assentamentos da Reforma Agrária na Fronteira Amazônica. In: HÉBETTE, Jean. (Org.). Cruzando a Fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Belém: EDUFPA, 2004. v. 2. p. 1-303.

3. ABELEM, Auriléa Gomes; HÉBETTE, Jean ; PARAENSE, Mariceli; EMMI, Marília . Cruzando uma zona de fronteira em conflitos: o leste do Médio Tocantins. In: HÉBETTE, Jean. (Org.). Cruzando a Fronteira: 30 anos de estudo do Campesinato na Amazônia. Belém: EDUFPA, 2004. v. II. p. 1-303.

4. ABELEM, Auriléa Gomes; COSTA, Maria José Jackson . A Descentralização de Políticas Públicas: o caso Planfor/PEQ no Pará. In: COSTA, Maria José Jackson. (Org.). Trabalho, educação profissional e empregabilidade. Belém: EDUFPA, 2006. p. 1-261.

Essa produção é também enriquecida com suas orientações acadêmicas, dentre elas as 4 dissertações de mestrado que acompanhou como orientadora ou coorientadora, além de vários trabalhos de graduação em áreas como a Sociologia, a Geografia, a Ciência Política e o Planejamento Urbano e Regional.

Sem dúvida, foi toda essa bagagem acadêmica e cultural a responsável pela sua inquestionável aceitação como nova sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. E é neste sentido, minha querida orientadora e amiga, ilustríssima Professora Auriléa Abelém, que quero, em nome dos sócios deste Instituto, dar-lhe as boas-vindas a este importante silogeu a fim de que possa, a partir de agora, ocupar a cadeira de número 44, como sua fundadora, cujo patrono é o ilustríssimo Roberto Araújo de Oliveira Santos.

Sua presença no nosso meio é um motivo de grande alegria, de honra e de orgulho, pois sabemos que sua trajetória de vida, assim como a sua rica trajetória acadêmica, nos diversos campos onde atuou e tem atuado, referendam a sua preocupação em articular os conhecimentos entre a história, a geografia e as ciências afins, tendo, portanto, muito a contribuir para elevar ainda mais o nome do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e para engrandecer essas importantes ciências que muito bem dialogam com a sua formação acadêmica e profissional.

Que seu rico conhecimento, assim como o seu pensamento crítico e reflexivo, venha a somar àquilo que se faz e se divulga a partir do IHGP. Que sua paixão e seu amor pelo Reducto de São José, por Belém, pelo Pará e por nossa região sejam bem acolhidos no Solar do Barão, que também é um casarão, como este em que estamos, que muito bem acolheu a sua história e a sua geografia de vida.

E, ainda, que o seu carinho, a sua atenção e o seu cuidado em preservar e manter este casarão inspire-nos, também, juntos, no casarão do Barão, a preservar, a manter, a cuidar e a divulgar a História, a Geografia e a Antropologia de nosso estado e de nossa região; preocupações estas que são a razão maior da existência de um Instituto que é centenário e que já se tornou um patrimônio de nossa cultura, de nossa história e da paisagem urbana de nossa cidade.

Sinta-se em casa, pois este Instituto e todos os que nele se reúnem, e que é tão bem presidido pela Profa. Dra. Anaiza Vergolino, já lhe têm, a partir de agora, como parte de sua história e, por que não dizer, de sua geografia, que é feita cotidianamente por cada um dos que integram o IHGP.

É formado por sócios que, mais que intelectuais, pesquisadores, professores, estudiosos da Geografia, da História, da Antropologia e de ciências afins, compõem um corpo de cidadãos empenhados em causas e questões que não são apenas nossas, mas de toda uma coletividade, e que também agora lhe recebem de braços abertos para reforçar o nosso quadro de intelectuais, para consolidar atividades já em curso, bem como, para constituir outras frentes de trabalho por meio de novas inciativas que, esperamos, possam surgir a partir  de sua presença entre nós, reforçando o nosso ambiente propício à criação, ao debate e à reflexão científica e cultural.

Seja muito bem-vinda professora Auriléa Gomes Abelém. O Instituto Histórico e Geográfico do Pará, agora é, também, sua casa!

Obrigado!

Belém-Pará, 23 de setembro de 2016.


Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior
Geógrafo e Bacharel em Direito, UFPA.
Sócio Efetivo do IHGP, Cadeira no 21.
Doutor em Geografia Humana, FFLCH/USP.
Professor Titular em Geografia, NAEA/UFPA.
Pesquisador Nível 1D, CNPq.


[1] ABELÉM, A. G. Memória a Belém. Disponível em: <http://memoriaabelem.blogspot.com.br>. Belém, mai. 2016. Acesso em: 21 set. 2016. n.p.
[2] Idem, ibidem.
[3] Idem, ibidem.
[4] ABELÉM, A. G. Urbanização e remoção: por que e para quem? Belém: UFPA/NAEA, 1988.
[5] TRINDADE JR., S-C. C. Produção do espaço e uso do solo urbano em Belém. Belém: NAEA, 1997.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A FORMAÇÃO PARA PESQUISA E PLANEJAMENTO EM CIÊNCIAS SOCIAIS - Auriléa Gomes Abelem

Em 2007 fui convidada a escrever um dos "relatos de uma trajetória" a ser incluído na coletânea de Memórias sobre os 50 anos da UFPA. O texto a seguir tem como base a primeira parte dessa publicação, acrescida de comentários mais personalizados e de fotos da época.

Interessante ser convidada a pensar o passado para um relato de memórias sobre a UFPA. Voltar no tempo um pouco mais de quarenta anos e no esforço de recompor fatos e histórias vividos ou presenciados perceber com mais clareza a importância da universidade na oportunidade que oferece para o crescimento profissional e pessoal de seus alunos, ainda que nem sempre ofereça as condições ideais para tal.
 
Prédio da Antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFPA, hoje sede da APAE, foto in 20 anos da UFPA





















Fiz vestibular para UFPA em 1963, para o curso de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Pará, então situada na rua Generalíssimo Deodoro de Mendonça, onde hoje funciona a APAE – Associação Paraense dos Amigos de Excepcionais. A administração funcionava no prédio principal e os cursos no barracão nos fundos do terreno Era uma das faculdades que, ainda que em imóveis distintos, passaram a compor, em 1957, a Universidade Federal do Pará.


                                               
Era uma época de grande efervescência política e cultural na universidade brasileira, com intensa participação dos estudantes que contavam, em Belém, com uma sede onde era possível congregar os vários diretórios acadêmicos. Situada na Avenida São Jerônimo, hoje Governador José Malcher, a União Acadêmica Paraense – UAP, filiada a UNE – União Nacional dos Estudantes, foi em 1 de abril de 1964, um dos primeiros alvos dos militares aqui no Pará, sendo invadida, suas lideranças presas e a entidade extinta.
União Acadêmica Paraense, na vésperas do golpe de 1964
Entrei na faculdade pensando em me tornar pesquisadora em Ciências Sociais. Até então, era possível ter o título de bacharel e licenciatura nos cursos oferecidos: Ciências Sociais, História, Geografia, Letras e Artes, Matemática e Pedagogia. Não pretendia ser professora e sim me dedicar aos trabalhos de pesquisa, embora na época não soubesse bem qual seria o caminho para consegui-lo.

Infelizmente, em decorrência do golpe militar de 1964, as expectativas do que seria um curso para formar pesquisadores em Ciências Sociais foram abaladas em seus alicerces: o curso passou a formar apenas licenciados, não mais bacharéis – o que me fez pensar em desistir; as abordagens teóricas passaram a ser transmitidas com receio, descuidando de revelar aos alunos os diferentes olhares e as diversidades de explicações sobre os fenômenos sociais.  Predominava a visão sistêmica na Ciência Política e a funcionalista na Sociologia, ousando a Economia Política avançar e lançar luzes sobre a diversidade de correntes. O impacto na formação de um espírito crítico nos estudantes, principalmente naqueles que não eram oriundos da escola pública e que não tinham vivência, leitura, nem militância política foi bastante comprometido, só sendo possível de ser recuperado anos mais tarde quando a UFPA iniciou a dinamização da pós-graduação na área de ciências sócio-econômicas, ainda no período dos governos militares. 

Mas, paralela e contraditoriamente o curso permitia olhar uma mesma realidade sobre os diversos ângulos disciplinares das Ciências Sociais – dois anos de Sociologia com Orlando Costa, dois anos de Ciência Política com Amílcar Tupiassu, dois anos de Antropologia (Física com Armando Bordalo e Cultural com Napoleão Figueiredo), dois anos de Economia, incluindo Economia Política, com Roberto Santos, passando pela História Econômica Política e Social Geral, do Brasil e da Amazônia e pela Geografia Humana. Ao mesmo tempo oferecia ferramentas para um trabalho de análise e interpretação dos fenômenos, desde a Introdução à Filosofia com Benedito Nunes, à Matemática e Estatística, com a síntese na Metodologia e Técnica de Pesquisa com a Graça Landeira, que estreava na docência universitária com a nossa turma. 

As disciplinas de História Econômica e Geografia Econômica eram cursadas em conjunto com os alunos da Faculdade de Economia e Ciências Contábeis e Atuariais, que funcionava no prédio situado na Avenida Nazaré, próximo á esquina da Dr. Moraes. Disciplinas como Didática, Psicologia da Educação, Administração Escolar e Orientação Educacional, oferecidas nos dois últimos anos, reuniam os alunos de todas as licenciaturas da Faculdade, inclusive os do curso de Pedagogia, o que era viável devido ao pequeno tamanho de turmas dos cursos.

Prédio na Avenida Nazaré onde, na década de 60, funcionava a Faculdade de Economia, foto in 20 anos da UFPA.
Desconfio que o fusca branco estacionado em frente à faculdade era o meu 400.

A turma de Ciências Sociais que colou grau em 1966 era composta de apenas 10 alunos. O conjunto das turmas da faculdade que se formou nesse ano foi de 48 estudantes, tendo os cursos de Matemática, Letras e Geografia apenas cinco alunos cada. O curso de História era o mais numeroso com 12 formandos e o de Pedagogia com 11. O pequeno número permitia também a colação conjunta no Teatro da Paz, com todos os colandos no palco, mais seus paraninfos e a mesa diretora. 

Diplomandos da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras/UFPA de 1966
Cerimônia de Colação de Grau no palco do Teatro da Paz da turma de 1966, à esquerda os colando, à direita os paraninfos e ao fundo a mesa diretora
O estágio obrigatório, supervisionado pelo professor de Prática de Ensino, no caso da nossa turma, era realizado no Colégio Augusto Meira. A Universidade não dispunha ainda de um colégio de aplicação, que seria mais tarde o Núcleo Pedagógico Integrado – NPI.  Os estágios para pesquisa dependiam do interesse e da iniciativa dos alunos, não constando do currículo nem tendo caráter de obrigatoriedade, mas era possível conseguir com algum dos raros professores que desenvolvessem paralelamente à docência, atividades de pesquisa, como os de Antropologia.

A Faculdade de Filosofia comemorou em outubro de 1964 seu primeiro decênio com uma programação de painéis promovidos pelos seus diversos cursos. Lembro ter colaborado com Professor Roberto Santos no painel sobre “Alguns Problemas do Crescimento de Belém”. Ainda que apenas apresentando o álbum seriado para o professor responsável pelo painel, talvez aí iniciasse meu interesse e fascínio pelos estudos urbanos, desenvolvidos mais tarde na pós-graduação.

 Os professores titulares das disciplinas básicas do curso eram todos bacharéis em Direito, denotando a sólida base social do curso de Direito da época e a quase inexistência de professores oriundos de cursos de Ciências Sociais, mesmo que de outros estados.


Os cursos anteriores à reforma universitária de 1968 funcionavam em regime seriado, o que possibilitava que alunos de uma turma iniciassem e concluíssem o curso juntos, facilitando os grupos de estudo, a formação de lideranças e criando sólidos laços de amizade entre os futuros profissionais.

Amigas e companheiras de estudo, Maria José Oliveira e Silva, Heliana Lima e Auriléa Gomes com o paraninfo da Turma de ciências sociais, Prof. Roberto de Oliveira Santos
É interessante constatar que a formação generalista oferecida então pelo Curso de Ciências Sociais, apesar do vínculo estreito com a licenciatura, forneceu a base que permitiria e facilitaria o desenvolvimento de profissionais aptos para o diagnóstico, planejamento e intervenção na realidade social, política e econômica estadual e regional, muitas vezes enriquecendo e ilustrando com a prática o entendimento dos conhecimentos teóricos a serem repassados na docência, estreitando os vínculos entre pesquisa, ensino e extensão. Ainda que ameaçado de ser extinto após o golpe militar pela perspectiva crítica que o curso oferecia, e com as consequentes restrições de abordagem já comentadas, percebe-se que muitos dos profissionais formados nessa época vão compor as equipes técnicas que se constituíram nas células do sistema de planejamento então implantado no Estado e na Região e que tem todo um apogeu com a teoria desenvolvimentista do período dos governos militares.

Saindo em 1966, portanto antes da Reforma de 1968, retornei como docente em 1974, depois de atuar por oito anos na condição de técnica e pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará – IDESP, então órgão de pesquisa e planejamento estadual, para o qual fui convidada pelo professor Amílcar Tupiassu, passando por um contrato de experiência e treinamento, junto com outros técnicos, todos economistas recém formados que iriam compor equipes para implantar as unidades de planejamento estadual (muitos dos economistas foram posteriormente trabalhar na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia – SUDAM). Ao retornar encontrei a reforma implantada e vários cursos já funcionando no Campus do Guamá, inclusive os da antiga Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, agora distribuídos em quatro Centros Diversos: Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Centro de Letras e Artes, Centro de Educação e Centro de Ciências Exatas e Naturais. O que explica o fato do meu histórico escolar ter sido fornecido pelo Centro de Educação, em 1973, com a assinatura de seu diretor, Antônio Moreira Gomes, enquanto que no diploma consta a assinatura do Diretor em Exercício, em 1966, da Faculdade de Filosofia, Professor Artur Napoleão Figueiredo.

Meus registros para o período solicitado são, portanto, basicamente como aluna, ainda que ao retornar como docente percebesse as alterações ocorridas com a reforma de 1968 e com a mudança da maioria dos cursos para o Campus Universitário no Guamá.

Com o regime de credito, os docentes dos centros de ensino básico como o de Filosofia e Ciências Humanas passaram a enfrentar o desafio de ministrar disciplinas em turmas numerosas, que reuniam alunos dos diferentes cursos de áreas correspondentes em seus primeiros semestres de vida acadêmica. Em compensação, com o aumento do número de vagas discentes e com a tentativa de flexibilização e otimização de resultados juntando disciplinas de cursos afins em uma mesma turma, professores e alunos passaram a contar com a possibilidade de escolha de horários para ministrar ou cursar as disciplinas.

Procurou-se contraditoriamente democratizar a universidade, aumentando o número de vagas, ao mesmo tempo em que se criava o mecanismo para cercear a liberdade e o desenvolvimento da crítica e da livre expressão de alunos e professores, impedindo ou dificultando o desenvolvimento de futuras lideranças ou calando as lideranças então existentes.

No entanto, a busca de políticas de desenvolvimento, a necessidade do governo militar de legitimar-se e de valorizar a Amazônia, garantindo a integração regional, apresentaria reflexos diretos na Universidade. Imporia a formação de técnicos gestores e planejadores para pensar a região e seus estados e, como conseqüência, a revitalização das Ciências Sociais e Econômicas, estimulando o desenvolvimento da pós-graduação na área e dando origem, em 1973, ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

A contradição mais uma vez se evidencia. Se por um lado, o núcleo de integração então surgido vai contribuir para a formação de ideólogos do planejamento estatal, dando origem mais tarde ao mestrado em Planejamento do Desenvolvimento, é o mesmo núcleo que vai estimular a consciência crítica e instrumentalizar seus alunos para a busca do planejamento alternativo, democrático e participativo.

Portanto, ainda que se questionasse, como ainda hoje acontece, enclausurar-se a universidade em seus muros, é claramente percebível a estreita relação existente, principalmente na área de Ciências Humanas, entre seu elenco de cursos, seus conteúdos e as políticas públicas desenvolvidas, contribuindo para formar profissionais, professores, técnicos, pesquisadores e gestores aptos não só para planejar e executar as políticas, mas também demandar, monitorar e avaliar as mesmas, seja do ponto de vista da gestão estatal, seja através da busca de controle social por parte da sociedade civil.