quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Os Casarões da Minha Vida - Antônio Jorge Abelem, meu amado companheiro do casarão do Reduto





ANTONIO JORGE nasceu em Belém, no bairro do Reduto, em 23 de junho de 1935, filho de Jorge Abelem Aze e Emília Zalouth Abelem, ambos de origem libanesa. Estudou no Colégio São Geraldo Magela, Colégio Nazaré e na Escola Prática. Único homem dos cinco filhos nascidos ficou órfão de pai aos 19 anos, passando a dividir com a irmã Maria Léa, três anos mais velha, a direção e sustento da família. Para tanto largou a Faculdade de Direito onde cursava o primeiro ano, retornando anos mais tarde com a ajuda e incentivo do amigo Roberto Simões. Neste espaço de tempo dedicou-se ao comércio, ampliando os negócios deixados pelo pai, uma loja de tecidos e armarinho na Rua 28 de setembro, passando a ter em 1964, quando nos conhecemos, mais três filiais, em Boulevard Castilho França (foto), Canudos e Estrada Nova, além da matriz e de uma fabriqueta de guarda-chuva, com o slogan “Loja Jorbem, que cobre e veste bem os quatro cantos de Belém”.
Abelém retorna a Faculdade de Direito em 1961, no segundo ano, passando a manter estreita amizade com alguns de seus colegas de turma, como Leônildes Silva, João de Jesus Paes Loureiro, Ronaldo Barata, e Gabriel Leal.
Conheci Antônio Jorge em 1964, meses antes dele se formar.



O Frigopar, de meu pai e onde passei a trabalhar no escritório, quando no segundo ano da Faculdade, ficava na outra esquina de sua loja na 28 de setembro e de lá ele me paquerava. Além disso, eu morava na São Jerônimo, quase vizinha da União Acadêmica Paraense e da minha janela, sempre via os estudantes que mais frequentavam a UAP, inclusive o Antônio Jorge. Fui apresentada a ele, na banca de tacacá da Judite, A Jurídica, por minha colega de turma Heliana Lima, depois Jatene. Sendo colega e amiga de Isidoro Alves, através dele Abelem começou a me telefonar e iniciamos um namoro interrompido em maio de 1966 e reatado em abril do ano seguinte. Casamos em 1968. 


O namoro teve início poucos meses, antes de sua formatura, primeiro dia em que frequentei sua casa, não tendo, pois, intimidade com a família e ficando com meus pais na área da garagem, só tendo acesso ao interior da casa, na hora da ceia. Portanto, não vi a cena em que João de Jesus Paes Loureiro, na qualidade de orador da turma, tentou fazer o discurso impedido na cerimônia da colação, quando Dr. Clóvis Malcher também se negou a fazer o de paraninfo, em solidariedade. Mas não seria ainda desta vez que se ouviria o discurso do orador da turma de direito de 1964.  Um coronel, vizinho da família, ameaçou prender Paes Loureiro se ele atendesse ao pedido dos colegas que o incentivavam a falar. Soube depois, por Antônio Jorge, o que ocorrera nos salões internos. Era muita gente, muitas paqueras, não convinha pra ele que eu circulasse por ali. Entendi isto mais tarde. Após casarmos e enquanto Abelem gozou saúde, a maioria das festas comemorando a data da colação desta turma, festejada todo ano, foi realizada em nossa casa, na 28 de setembro, onde passei a morar, dez meses depois de casada, em virtude de doença grave de sua mãe, minha sogra. A foto registra uma das celebrações da turma no casarão da 28.

Bem sucedido no comércio, Antônio não pensou de início se dedicar à advocacia. Mas a dificuldade encontrada pelos colegas que haviam sido presos ou perseguidos o fez montar um escritório com Ronaldo Barata, Leônildes Silva, José Seráfico, João de Jesus Paes Loureiro, Gabriel Leal e José Gorayeb. A primeira causa defendida pelo escritório foi uma questão do Frigopar, frigorífico do meu pai, que os fez viajar para Goiás (Cristalândia) a fim de participar de uma audiência (foto abaixo no aeroporto indo deixá-los para viagem). Desses colegas quem ainda trabalhou um bom tempo com o Abelem, já no escritório do Ferro Costa, no Edifício Importadora, que ele dividia com Wilson Souza, foi Ronaldo Barata e, principalmente, Leônildes Silva. Os demais foram logo saindo para outras áreas como magistério e literatura.

Antônio era uma pessoa admirável, com ele aprendi o sentido da amizade plena, sincera, a solidariedade. Ajudou meu pai, quando foi à falência, um ano depois de casarmos, a montar uma lanchonete no jardim/garagem do casarão da São Jerônimo – Vindi-K. Anos depois nesse mesmo local surgia a Adega do Rei, em sociedade com Claudio Guimarães, seu amigo-irmão, arquiteto, que havia sido despedido como copiloto da Varig, por ter reclamado do extravio da mala do Abelem.
 Final da década de 70, primeiros anos da de 80, a Adega do Rei, principalmente em sua primeira etapa, reunia estudantes e profissionais de esquerda que curtiam uma boa música, boa bebida, um bom papo, capitaneado pelo poeta Ruy Barata, e que cantavam e torciam pela redemocratização do país. Com a necessidade da venda da casa de meus pais que estava hipotecada, a Adega do Rei passa a funcionar na União Espanhola e o Comandante Claudio sai da sociedade para ir voar no garimpo. Abelém fica sozinho, dividindo seus afazeres do escritório de advocacia, das lojas de comércio, da direção do Monte Líbano e do Paysandu.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Os Casarões da Minha Vida - Do Bairro de Elite ao Bairro Operário


Os Casarões da Minha Vida

Do Bairro de Elite ao Bairro Operário 





“O Reduto que já foi habitado, predominantemente, por pessoas de baixo poder aquisitivo, exerceu importante papel no desenvolvimento comercial de Belém. A proximidade do bairro com a Baía do Guajará era um aspecto favorável. Comerciantes de várias nacionalidades, principalmente sírio-libanesa, se estabeleceram na região pela facilidade de descarregar suas mercadorias. No início do século XX, a maior parte das fábricas que se instalaram em Belém estava situada no Reduto. Foram estabelecimentos que, no período de 1920 a 1940, se mantiveram firmes em sua produção. Por essas características, o lugar recebeu identificações como “bairro mercado” e “bairro operário”.” (Jornal o Diário do Pará de 12/01/2010).

Em 1969 fui morar na casa da família Abelem, na Rua 28 de setembro 982, no Bairro do Reduto, já casada com Antônio Jorge Abelem, único filho homem de um casal de migrantes libaneses que se conheceram em Belém, ambos residentes no Bairro do Reduto, na Rua 28 de setembro.
No entanto, minha ligação com o Bairro extrapola os 41 anos em que aí morei. Meu bisavô, Raphael Fernandes Gomes foi um dos sócios fundadores da firma Ferreira Gomes & Cia., que sucedeu à firma Centro Comercial Redutoense, em companhia de mais outros dois sócios, todos de nacionalidade portuguesa. Situada na Rua 28 de setembro, entre a Doca do Reduto e a Rua Benjamin Constant, tem seu primeiro registro na JUCEPA com a data de 1881. Em 1912 meu avô, Raphael Fernandes de Oliveira Gomes, entra como um dos sócios solidários e de responsabilidade ilimitada. Em 1924 a firma é recomposta, transformada em sociedade anônima sob a denominação de Ferreira Gomes Ferragista S/A, explorando os ramos de ferragens, ferro, louça, estância de madeira e outros já anteriormente existentes, de acordo com a foto de propaganda. Ocupava vários prédios na Rua 28 de setembro, não só o prédio da matriz mostrado na foto. Além das lojas de comércio, desenvolviam indústria de fabricação de pregos e outras correlatas, sob a denominação de União Fabril Comercial, situada na Trav. Piedade, sob os números de 1 a 9, e  indústrias de madeiras e outras, como a Serraria Benfica, à estrada de Ferro Bragança, ramal de Benfica conforme registro na Junta Comercial do Pará – JUCEPA. Lembro-me de uma filial na João Alfredo, entre Padre Eutíquio e Campos Sales, chamada RIOMAR, que meu pai, Pedro José de Mendonça Gomes, gerenciava, quando eu ainda era criança.

A Firma Ferreira Gomes Ferragista S/A era uma potência e, de certa forma, dominava o comércio do seu ramo no Bairro e, por que não dizer, na cidade. O prédio da matriz ocupava todo um quarteirão da  Rua 28 de setembro, entre a Travessa Benjamin Constant e a Doca do Reduto onde hoje existe um posto de gasolina, mostrado em foto. No início da década de 60 começaram as dificuldades, sendo a falência decretada em 1965, último ano com registro na (JUCEPA), Funcionou, portanto, 84 anos.

Na esquina da Rua 28 de setembro com a Trav. Benjamim Constant existiam três estabelecimentos que se cruzam na minha história: Ferreira Gomes Ferragista S/A, Frigorífico Paraense Ltda. – FRIGOPAR e Lojas Jorbem, antes Bazar São João. Mas isto depois eu conto.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Cidade, Identidade e Temporalidade


CIDADE, IDENTIDADE E TEMPORALIDADE

                                                                                Auriléa Abelem



Avenida São Jerônimo, entre as Travessas Rui Barbosa e Benjamin Constant. Com destaque para o poste de ferro e as jovens mangueiras. Desconheço auto, foto retirada internet
Bairro da Terra Firme, um dos mais populosos da cidade. Foto retirada Google, Foto Terra Firme/ agencia divulga.



A cidade não é homogênea, ela reflete a estrutura da sociedade, apresentando espaços fragmentados e segregados. Por outro lado, esses espaços se articulam formando um todo que condiciona a vida em sociedade e ao mesmo tempo lhe é reflexo, impondo e criando uma série de simbolismo que vão desenhar imagens objetivas e subjetivas sobre a cidade, base para a construção da identidade. Como afirma Bader Sawia, identidade não é uma substância dada que se mantem ao longo de sua existência, imutável e idêntica a si mesma. Ela está sendo sempre reposta, ainda que a aparência seja de estabilidade. Ao falar de identidade entra-se no campo dos processos de diferenciações, de choques de interesses e de hierarquizações das distinções. Ao perguntar pela identidade da cidade, deve-se ter em mente que ela não é apenas uma estrutura física, um conjunto de ruas, prédios e praças. Ela contem uma subjetividade enquanto possuidora de uma história, reflexo de desejos, carências, conflitos e ambiguidades. Há uma interação, um encontro de identidades de homens/mulheres e de espaços. Espaços esses construídos por relações sociais, constituídos de simbolismos que apresentam significados diversos para as diferentes classes sociais, para as diversas gerações. Não existe uma única leitura da cidade, até por que um mesmo espaço urbano possui temporalidades diversas, territorialidades distintas.

Pensemos nossa Praça da República, ilustrada nas duas últimas fotos. Podemos perceber diferentes territorialidades, diferentes poderes exercidos no espaço da praça em diferentes horários do dia e/ou em diferentes dias da semana: adultos e idosos fazem Cooper pela manhã nos dias úteis, mas nos sábados e domingos a praça é dos ambulantes e/ou feirantes com suas vendas de artesanato e mercadorias importadas, enquanto as noites presenciam outros personagens a desfilar na praça que passa a ser dos boêmios e outros personagens. O ritmo do tempo também se apresenta diverso, o borborinho da feira, a ligeireza do andar no Cooper, contrastam com o tempo lento da noite calma na espera do freguês ou do efeito idílico do álcool.

A cidade é vista e vivida de diferentes maneiras, seja pensando o passado, o presente ou o futuro. A representação que se faz da cidade está intimamente ligada à relação que os indivíduos tem com o espaço urbano, relação de moradia, de trabalho, de lazer, de devoção. Tem a ver com o papel que a rua desempenha nos seus folguedos de criança, com o namoro adolescente na praça, com a agitação do trânsito para a escola ou para o trabalho, com o saudosismo das cadeiras nas calçadas, com a chuva da tarde diminuindo o calor do dia, e mais recentemente com a agitação e paquera no shopping center e nos bares da Doca.
Mas a cidade é desigual, conforme observamos nas duas primeiras fotos. Ela possui um espaço em que a cidadania é plenamente exercida, em alguns já há bastante tempo, e outro em que ela inexiste. Inclusão e exclusão formam os extremos de pertencimento à cidade. Ainda assim, o processo de exclusão e segregação social que é refletido na existência dual da cidade não impede que se dê o processo de inclusão e que mesmo os despossuídos idealizem seus desejos sobre o prazer de morar na cidade bela, bem servida de infraestrutura, ainda que pouco usufruam de seus serviços. Essa inclusão através da participação imaginária permite aos excluídos se organizarem e lutarem por seus direitos, apresentando reivindicações a serem apreciadas e trabalhadas na pauta de decisões políticas para a cidade. Luta também desigual, já que o acesso à pauta passa por um sistema de filtro, próprio do processo de decisão política que continua sendo hierárquico.
No imaginário, portanto, a representação da cidade se faz de acordo com os interesses, vivências e desejos das diferentes classes, dos diferentes gêneros, das diversas gerações.


Os Casarões da Minha Vida - Meu avô materno e o Casarão da Av. São Jerônimo


Os Casarões da Minha Vida
1.     Meu avô materno e o Casarão da Av. São Jerônimo

Em meados de 1954 mudamos do número 334 para o 267, na Avenida São Jerônimo, casa anteriormente de propriedade do meu avô materno, que havia se separado de minha avô, com quem aparece na primeira foto com os filhos, no dia do noivado de meus pais,  tendo depois constituído nova família. Filho de migrantes portuguêses,  Antônio Alves Ramos e Anna Alves Ramos, que iniciaram suas atividades no ramo de panificação, meu avô foi o primeiro presidente da companhia de aviação Paraense Transportes Aéreos S/A – PTA.
Na década de 50 o Jornal “O Aeronauta” do Rio de Janeiro, de 15 de janeiro de 1958 publica sua foto com os seguintes dizeres: “O cliché ilustra o sr. Antônio Affonso Ramos Junior, que como já é de conhecimento público, vem impulsionando com grande brilhantismo a empresa PARAENSE TRANSPORTES AÉREOS S/A, que em tão pouco tempo, já conta com a simpatia das autoridades civis e militares, pela soma de bons serviços prestados ao povo brasileiro.” Em final da década de 50 e início de 60, resolveu ele ir morar com a nova família na cidade do Rio de Janeiro, passando seus negócios para o filho e dois dos seus genros. Tio Tony, Antônio Alves Ramos Neto, ficou com a PTA,
cujo negócio era inicialmente, transporte cargueiro, principalmente carne, ampliado depois para o transporte de passageiro, e os genros, meu pai Pedro Gomes e seu irmão, José Fernandes Gomes, ficaram com charqueada e um frigorífico, FRIGOPAR, situado na esquina da Rua 28 de setembro com a Trav. Benjamin Constant. Folcloricamente, a sigla PTA era ironizada com o significado, para alguns, de “Prepara tua Alma” devido a vários acidentes que ocorreram com a empresa, para outros, “Preto também Avua” já que a companhia tinha comandantes negros, inclusive na diretoria, diga-se de passagem, bonitos e elegantes.
Meu avô Ramos dizia que “Muito Ramos juntos só pode dar galho” e assim foi por vários anos, mesmo depois de ambos os negócios terem fechado, entre final da década de 60 e início da de 70. Nunca soube como foi a transação de meu avô com meu pai em relação ao casarão. Só sei dizer que fomos muito felizes naquela casa, eu particularmente de 1954 a 1968, tendo meu pai permanecido, mesmo depois da falência do Frigopar. Com a ajuda do genro, Antônio Jorge Abelem, meu marido, montou no jardim do casarão uma  lanchonete, que passou a chamar-se, por sugestão de sua mãe, vó Aurea, Vindi-K. Vizinha do Centro Cultural Brasil Estados Unidos, CCBEU, que funcionava no prédio ao lado, onde hoje é o IPHAN, pode garantir a sobrevivência da família, enquanto teve saúde para tal. Depois, no mesmo local já ampliado para o quintal, meu marido abre a Cervejaria Adega do Rei. Mas isto já é outra história.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Os Casarões da Minha Vida - O quarteirão da São Jerônimo e meus inesquecíveis vizinhos


Os Casarões da Minha Vida
5. O quarteirão do Casarão da São Jerônimo e meus inesquecíveis vizinhos



Poucos imóveis situados na Av. São Jerônimo, entre Rui Barbosa e Benjamin Constant, na década de 1960, existem hoje. Deles destacam-se, no quarteirão da nossa residência: o belo casarão da esquina com a Trav. Rui Barbosa, onde hoje funciona o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN e anteriormente foi sede do Centro Cultural Brasil Estados Unidos – CCBEU, residência da família de Otávio Mendonça, e na minha primeira recordação sede de um partido político. Situava-se à esquerda de nossa casa; do lado oposto, à direita, a casa da família Abrãao e Alfonsita Antônio José, donos da Farmácia Sul Americana, com duas unidades, uma na Santo Antônio e outra no início da Treze de Maio, ambas no comércio, e que resistiram até à formação dos novos grupos que passaram a dominar o comércio farmacêutico em Belém; mais próximo da Benjamim, alguns imóveis resistem, entre eles, o da família Homci e de Abílio Velho, então um dos donos da Importadora de Ferragens, no bairro do Reduto. No quarteirão em frente destacam-se: na esquina com Benjamin, outro belo casarão, antes residência do Comando da Aeronáutica, e funcionando hoje e com prédio perfeitamente preservado, uma outra unidade do IPHAN; ao seu lado, o pensionato da primeira foto, existente até hoje, em que moravam moças vindas do interior para estudar em Belém, muitas das quais nossas amigas. Merece destaque o poste de ferro que animava o romper do ano novo com suas batidas com instrumentos também de ferro. Alguns dos prédios que desapareceram, como se para apagar capítulos da memória da cidade, estavam neste perímetro da São Jerônimo. O pensionato do Padre Raul, quase na esquina da Rui Barbosa, abrigou estudantes que viriam a ter destaque na história política e social de Belém. Entre eles: Januário Guedes, Pedro Rumiê, Felix Oliveira e Pedro Portugal. Ao lado, outro pensionato, cujo prédio foi mais tarde residência da família Gurjão e depois da família dos Farazinhos que aprontaram e contaram muitas estórias. Mas o prédio mais emblemático para história política da juventude universitária de nossa cidade foi o de número 509, da União Acadêmica Paraense – UAP, derrubado em 1969 para dar lugar, junto com outros imóveis, a um investimento hoteleiro, o Hotel Regente. Segundo Isidoro Alves, em seu texto para o livro “1964. Relatos subversivos: os estudantes e o golpe militar no Pará”, depois da UAP este prédio abrigou a residência de um Comando Militar. Ficava vizinho à casa da família Antônio José, ao lado da casa de meus pais que passou a ter o número 543, quando da mudança de nome da Avenida para Governador José Malcher. Não interessava manter viva a memória do movimento civil estudantil e tal como a sede da União Nacional dos Estudantes – UNE, foi destruída fisicamente.  A foto da Folha do Norte de 01/04/1964, retirada de um artigo, publicado on line, “Um olhar à cidade de Belém sob o Golpe de 1964: paisagens e memórias de estudantes e artistas”, de Raquel Cunha e Flávio Leonel, de 2008, trás a seguinte legenda: “Desde as primeiras horas de ontem, com a notícia de que o Seminário Estudantil se reuniria na sede da UAP, ali estiveram, até à noite, elementos da Polícia. Na foto vemos o delegado Eimar Pantoja, com seus auxiliares, em frente à sede do órgão dos universitários.”
Várias das cenas que se seguiram e que tão bem são descritas por vários dos atores desta noite nos Relatos, assisti da janela de nossa casa. Como por exemplo, a narrada por Pedro Galvão no capítulo “Vencidos Vencedores”: “Vestidos de cuecas, sapatos e humilhação, eles procuravam manter a dignidade ao caminhar pelo centro da avenida mal iluminada, sob o olhar perplexo dos moradores nas janelas e da pequena multidão de estudantes e curiosos nas calçadas, de um lado e outro da rua, a nossa São Jerônimo velha de guerra, entre Ruy Barbosa e Benjamin Constant, justamente na quadra onde ficava a sede da UAP ...” e a nossa casa.
Neta e filha de comerciante de classe média, não tinha, na época, consciência política da importância e significado daquele momento. Só anos mais tarde, com estudo e convivência com pessoas politicamente engajadas, fui ampliando e clareando meu olhar e entendimento.


Os casarões de Minha Vida - O colégio das Irmãs Angélicas - 1954/1963

Os Casarões de Minha Vida
1.     O Colégio das Irmãs Angélicas – 1954/1963



Com uma educação austera, principalmente nos primeiros doze anos de minha vida, apresento a singularidade de ter estudado em casa até o terceiro ano primário, quando, com nove anos, passei a frequentar o colégio das Irmãs Angélicas, que funcionava no belo casarão da foto, situado na Serzedelo Correa,  entre Brás de Aguiar e Gentil Bittencourt, local onde hoje existe o prédio do SESI. As Irmãs possuíam dois colégios em Belém, o da Serzedelo, pago e frequentado por crianças e jovens de classe média e outra unidade na Antônio Baena com a 25 de setembro para crianças carentes. Em 1955 quando entrei no colégio, funcionava apenas até quarta série, acrescentando outras séries conforme esta turma avançava. Não tendo onze anos, idade exigida na época para frequentar o ginásio, não foi possível acompanhar a turma na qual entrei. Tive que cursar um ano de admissão , só entrando para o ginásio em 1957. Fato que só se tornou viável graças a interferência da minha professora primária, Zilda Garcia, na foto comigo, que também ensinava nesse estabelecimento educacional e convenceu meus pais das vantagens de eu ir para um colégio, que tinha inclusive transporte para condução das alunas, sendo a partir do segundo ano primário somente feminino. Nesse mesmo período meus irmãos, Pedro e Antônio Rafael, passaram a estudar no colégio Suíço Brasileiro, na Avenida Nazaré.
Ainda morávamos na primeira casa quando passei a frequentar o Colégio São Paulo. Eu lembro do ônibus escolar indo me apanhar. O primeiro dia nunca me saiu da cabeça. Quando a condução passou na esquina de casa, parecia que ia me levar para muito longe, senti as lágrimas rolarem. Também foi só no primeiro dia! Passei a amar o colégio, as colegas, os estudos e  alguns mestres e religiosas angélicas.
Na ocasião não tive consciência da importância de ir pra aula na condução do colégio. O ônibus inicialmente, depois uma camionete, andava pela cidade para apanhar outros alunos por lugares que nunca tinha frequentado. Novos bairros, novas ruas, foram abrindo para mim o horizonte da cidade e estimulando amizade com outras alunas que não apenas as de minha turma. Usei a condução do colégio até o término do ginasial, já então morando no casarão, Av. São Jerônimo 267, um quarteirão anterior à primeira casa, de número 334. Ao cursar o pedagógico, única opção oferecida pelo colégio das angélicas para o colegial, passei a ir em companhia de colegas que moravam no mesmo quarteirão, entre Rui Barbosa e Benjamim Constant, e que tinham carro e motorista, primeiramente com Abelina Vidueira Antonio José, alternando com as irmãs Anete e Margarida Cruz. Agora já não fazíamos o passeio pela cidade, o caminho era direto entre nossas casas na São Jerônimo e o Ginásio São Paulo, na Serzedelo Corrêa.
Nossa turma era amiga e estudiosa, tendo sido no primeiro ano do curso Normal acrescida de novas alunas, moças carentes, que precisavam regularizar seu curso pedagógico para exercerem a docência. As fotos em conjunto mostram na primeira a turma com uniforme de diário na área de esportes e na segunda com o uniforme de gala no dia da colação de normalista. Único dia em que o uniforme foi usado, já que o colégio da Serzedelo encerrou suas atividades nesse ano, formando apenas uma segunda turma de professoras normalistas. A unidade da Antonio Baena ampliou, mais tarde, seu atendimento para crianças também de classe média e permanece até hoje no mesmo local, com reconhecimento da qualidade de ensino.
Meus pais eram espíritas mas me matricularam em um colégio administrados por irmãs católicas. Participava, como as demais alunas, das aulas de religião, assistia as celebrações religiosas e executava bordados nas aulas de trabalhos manuais em panos que iriam enfeitar a capela do colégio. Mas havia certa reserva para comigo por parte de algumas das religiosas. Certa feita, a que ensinava Religião chamou-me à parte e questionou meu comportamento durante as aulas, que para ela era inadequado, pois achava que eu ficava com um ar de dúvida, sorrindo, como quem não acreditava no que ela dizia. Tomei um susto e fiquei magoada, pois fazia tudo para agradá-la, inclusive bordando panos para capela. Nunca tive a intenção de fazer galhofa com seus ensinamentos. Muito pelo contrário! A prova disso e que como tinha uma memória prodigiosa, facilmente consegui me classificar para representar o colégio no VI Congresso Eucarístico Nacional-CEN, obtendo o segundo lugar entre os demais candidatos das escolas concorrentes em Belém. Perdi pontos por não dominar o ritual da missa, que até então não frequentava. O VI CEN ocorreu na Praça do Congresso, hoje Waldemar Henrique, entre os dias 15 a 21 de agosto de 1953, sendo um fato importante na história da cidade, a ser relembrado em 2016, quando entre as comemorações do quarto centenário da cidade, ocorrerá o XVII CEN, entre os dias 17 a 20 de agosto, agora com o tema “Eucaristia e Partilha na Amazônia Missionária”, centrado principalmente no Estádio do Mangueirão.

 Outro fato que denota o preconceito das religiosas para comigo aconteceu quando já tendo concluído o pedagógico, telefonei para uma das irmãs, a secretária, uma das que eu mais gostava, a fim de solicitar a documentação para prestar vestibular na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Pará, para o curso de Ciências Sociais. Ela me respondeu: - pense bem, a gente não pode dar o que não tem. Fiquei tão magoada que me afastei por completo do colégio, não mais procurando as irmãs. Nem mesmo quando passei no vestibular ou quando poucos anos mais tarde, em 1966, me batizei, após realizar vários encontros catequéticos com Cônego Nelson, então pároco da Igreja de Santana.

Os Casarões de Minha Vida - A Casa dos primeiros 10 anos: recordações e mudanças

Os Casarões de Minha Vida
Casarão São Jerônimo 267
28 de Setembro 982















1. A Casa dos primeiros 10 anos: recordações e mudanças


Morei na Avenida São Jerônimo desde quando nasci, em 1944, até o ano em que casei, 1968. Ainda que a rua tenha tido seu nome alterado para Governador José Malcher, quando eu tinha doze anos, em 1956, nunca consegui assimilar tal troca. Continua sendo para mim, eternamente, a Avenida São Jerônimo. No decorrer destes quase 24 anos em que lá morei presenciei várias transformações nos costumes e hábitos da cidade.
Nos meus primeiros 10 anos de vida, moramos em uma casa entre as Travessas Quintino Bocaiúva e Rui Barbosa, onde hoje é o Edifício João Cardoso Figueiredo. Lembro das carroças com vasilhames de leite vendendo diariamente de porta em porta o líquido freco oriundos das vacarias espalhadas pela cidade; recordo dos carrinhos de mão que em junho perfumavam a cidade oferecendo ervas para os banhos de cheiro e coroas juninas para nos coroarmos; das carrocinhas que recolhiam os cachorros que vagavam sem dono pelas ruas e que se não procurados seriam queimados no forno crematório, existente na Alcindo Cacela, Bairro da Cremação. Todos costumes que já não exitem. A rua era o lugar de reunião da criançada, para o passeio de bicicleta, de patins, das brincadeiras de bonecas e seus instrumentais para as meninas e dos revolveres de espuleta, espingarda de chumbo, ou baladeira para os meninos, exibidos orgulhosamente quando ganhos no Natal ou nos aniversários. Eu nunca tive bicicleta, meu pai achava imprópria para meninas. Meus dois irmãos mais velhos tinham, minhas primas que moravam em frente a nossa casa, também. Assim aprendi a andar na bicicleta dos outros, mas sem muita destreza. Nas calçadas fazíamos os desenhos para pular macaca, brincar de cemitério, jogar bola de gude (petecas) com os meninos e brincar de roda com as meninas. A vizinhança se conhecia e se curtia, principalmente as crianças e os pré-adolescentes. Os dois quarteirões eram compostos de casas residenciais e mercearias, uma em cada quarteirão, na esquina da Rui Barbosa, O Combate, existente até hoje e na esquina com a Quintino Bocaiúva, a Mercearia Ninho, que atendia pedidos, a crédito, pelo telefone e mandava deixar em casa. Neste perímetro moravam algumas pessoas depois ilustres na história da cidade, o Coronel Alacid Nunes, em frente à casa de sua futura esposa, Marilda, da família Abel Figueiredo e ao lado da família de Machado Coelho. Estas casas encontram-se ainda hoje preservadas. Chamava atenção na esquina da Rui Barbosa, o conjunto de vários casarões de dois andares que lá permanecem, conforme se observa na foto retirada de postagens no face. Mais próxima a nossa casa outras famílias e pessoas que ainda lembro: Leônidas Figueiredo e Amaral Costa; João Figueredo que mais tarde compra a casa em que morávamos e constrói o edifício que leva seu nome, os Viana, Hélio e Siussi Mokarzel, Célio Lobato, Hildemar Tamegão Lopes e Alexandre Yamanuchi.
O que mais retenho na memória deste período é nossas brincadeiras de criança na calçada, ou dentro de casa, jogando peteca ou bola com meus dois irmãos, muitas vezes trazendo prejuízo e quebrando vasos que ficavam no corredor, então nosso campo de futebol, ou brincadeira de boneca com minhas tias quando estas estavam em casa. Geralmente, em função do prejuízo ou de alguma desobediência ou malcriação, nosso castigo era escrever linhas, tipo “Não devo desobedecer minha mãe”, umas quinhentas vezes.
O fato político do período em que moramos na primeira casa que trago gravado na memória é um comício no Largo do Redondo, esquina de Nazaré com Quintino Bocaiúva. Portanto, em uma das esquinas do quarteirão em que ficava nossa casa. Início da década de 50, concorrendo à eleição para governo do Estado o General Magalhães Barata (PSD – Partido Social Democrata) e General Zacarias de Assumção (UDN – União Democrática Nacional). Ficamos todos em casa, três crianças, eu e meus dois irmãos, com uma empregada, e meus pais foram assistir o comício. Eu era muito criança, seis anos, mas lembro do medo que ficamos quando ouvímos os disparos de armas e o barulho de correria na rua. Quando nossos pais chegaram soubemos que um rapaz fora atingido por uma bala perdida da polícia e que na correria para fugir do tumulto e preocupados com as crianças que haviam ficado em casa, minha mãe caíra, tendo meu pai dificuldade de protegê-la para não ser pisoteada pela multidão que se deslocava na mesma direção, da Avenida Nazaré para a São Jerônimo, pela Quintino. O estudante atingido foi Osvaldo Caldas Brito, aluno do Colégio Estadual Paes de Carvalho que saíra do colégio com colegas para assistir ao comício e que veio a falecer com o incidente. Tal fato teve enorme repercussão, contribuindo para a derrota de Barata ao Governo. Lembro do símbolo usado na campanha, a chinela, e dentre as marchinhas carnavalescas que marcaram a disputa entre os dois políticos:
“Oh! xente que bicho é este
É o Barata
Oi, pega na chinela e mata”